Ensino Religioso

Para ler e pensar:

Foto - Darwin e Espiritismo


Tirei a foto faz alguns meses do mural da banca da rodoviária de Santos. Reparem nas revistas rodeando a edição brasileira da Scientific American (em edição comemorativa sobre evolução). Além das revistas sobre espiritismo, mais à direita temos "bolos e festas"; e, mais à esquerda, "dietas e boa forma".
Fruto ou não do acaso, a imagem, pra mim, é cada vez mais tragicômica conforme o ano de Darwin avança.

Comentário rápido: Evolução versus designo inteligente

Saiu na Trends in Ecology and Evolution desse mês um artigo com o título “Evolution is intelligent design”. Confesso que a primeira vista fiquei assustado: uma revista desse nível publicando uma coisa dessas! Mas logo após ler o artigo fiquei mais calmo. Na verdade o autor procura derrubar aquela velha falácia criacionista, mostrando que a evolução não é aleatória e que não precisa de um ser onisciente para dirigi-la.

Conhecimento científico: da bancada ao livro escolar

Quando entramos na graduação nos deparamos com uma série de conceitos científicos “novos”. Conceitos diferentes e em muitas vezes contraditórios àqueles do colégio. Nada para se espantar muito, visto a natureza da mudança científica: pesquisas são feitas a todo o momento e teorias postas à prova em novos contextos. Na verdade é esse poder de se reavaliar e mudar que faz da ciência um empreendimento fascinante. O que é de se espantar é que alguns desses “novos” conceitos tinham mais de 20 anos! Conceitos que haviam sido descobertos ou modificados antes mesmo de eu nascer. Por que, então, não haviam sido incorporados ao currículo das escolas? Por exemplo, vocês tiveram teoria da relatividade na escola? Pois acreditem, ela foi publicada em 1905, ou seja, há mais de um século!
O pior é que não há sinais de mudança. Recentemente eu tive experiência em sala de aula (do outro lado dessa vez) e para preparar as aulas eu fui consultar os livros empregados pela escola – livros da última edição. E, pasmem, nem sinal dos “novos” conceitos lá. Por exemplo: ecossistema era tratado como moto perpétuo, quando sabemos que ele vai mudando ao longo do tempo; interações ecológicas eram dividas em positivas e negativas, quando na verdade elas formam um contínuo e que dependendo da situação elas podem favorecer ou prejudicar o indivíduo; não havia nada referente à clonagem e já faz mais de uma década desde a ovelha Dolly. Isso sem mencionar conceitos como metapopulação, paisagem e epigenética. Alguém poderia argumentar que “nem todos os que vão se formar no ensino médio serão biólogos, então a falta desses conceitos não é tão grave assim”. Mas some a isso os conceitos de todas as outras áreas e teremos uma subformação científica da população. Não é a toa que muitas pessoas se formam e não estão prontas para “compreender o mundo e atuar como indivíduo e como cidadão, utilizando conhecimentos de natureza científica e tecnológica”, como propõe o PCN (Parâmetros curriculares nacionais).
A qualidade do ensino científico é fundamental para tornar a população mais crítica e menos passiva às mudanças do mundo. Além da atualização do material didático e cursos de formação continuada para os professores, precisamos de um ensino que não trate o conhecimento científico como dogma. Que valorize o histórico da descoberta científica e sua natureza mutável e provisória. O crucial aqui é que as mudanças devem partir dos próprios professores e alunos.

Tópicos relacionados:
sobre a enquete do ensino público
42-38-35

O céu não é o limite



Eu cheguei hoje do trabalho em casa, como chego normalmente e me deparei com meu pai agitado: RÁPIDO!! VEM VER!!! EM 5 MINUTOS A ENDEAVOUR VAI DECOLAR, VEM VER AO VIVO PELA CNN.

Eu sou de uma família (pai e mãe) da aviação: meu pai era Chefe de Equipe de vôo na VARIG, e minha mãe trabalhava na equipe de terra do aeroporto de Viracopos, Campinas. Para mim, a dinâmica e a beleza (e as dificuldades, e os perigos) do vôo nunca foram mistério: cresci vendo aviões, voando em aviões, ouvindo aviões e brincando com aviões. Acredito que grande parte da minha admiração por ficção científica se deve ao fato de eu sempre ter tido contato com tecnologias bastante complicadas e muito fascinantes.

Eu sempre assisti lançamentos de vôos orbitais: Ao vivo, pela TV, por filmes, em livros... aquilo pra mim não era novidade. Mas por alguma razão (talvez em simpatia à emoção do meu pai) eu decidi sentar ao lado dele e assistir. 15 de julho de 2009 foi um dia lindo na Flórida. Acompanhei o lançamento, desde os 4 minutos que antecedem o lançamento (onde acontecem várias coisas cruciais e emocionantes) até 10 minutos vôo a dentro.

Quando faltavam 45 segundos para a ignição dos motores principais, eu já estava hipnotizado. A CNN transmite áudio da NASA, com poucas narrações de repórteres. Acompanhar o que estava acontecendo, ouvindo pessoas especialistas no assunto (no caso, o “repórter” era um comandante de ônibus espacial, sabia do que estava falando) realmente é emocionante (para mim pelo menos).

Lá pelo 4 minuto de vôo, eu estava quase tremendo de emoção. Tive um misto de orgulho e de fascínio pelo que estava acontecendo. Ver as forças da física sendo utilizadas com tamanho engenho e perícia, acompanhar o vôo daquelas 8 pessoas extremamente corajosas me fez chegar próximo ao choro.

A Endeavour está em serviço desde maio de 1992, e entrou em serviço para substituir a acidentada Challenger. É a vigésima-terceira missão da espaçonave.

7 minutos depois do lançamento, este aparelho carregando estas 7 pessoas, estava numa altitude que dificilmente chegarei, numa velocidade que com pouquíssima probabilidade atingirei, num ambiente perigosíssimo, e no décimo minuto de vôo, ela terminava uma manobra suave e (pela natureza do ambiente) silenciosa. Uma obra de arte, orquestrada pela inteligência da humanidade, pela esperteza, pela coragem, e pelo suor e pelo sangue de incontáveis homens e mulheres.

Lá abaixo, enquadrado por uma câmera estratégica da NASA (especialmente posicionada para observar possíveis e perigosos descolamentos de gelo condensado), estava o mundo que habitamos. Como diz o nome do nosso blog, se movendo.

Um delicioso soco no estomago de muita gente.


PS:

Algumas curiosidades sobre essa transmissão (e sobre esses lançamentos em geral):

  • Em 1:45 do vídeo, é possível ver água caindo da plataforma. É um sistema de supressão acústica que utiliza água para amortecer os impactos do lançamento. 1100 m³ de água são liberados em 41 segundos.
  • Por volta do minuto 2:40, o aparelho está quebrando a barreira do som. Notem a turbulência e a condensação de água nas extremidades frontais. Até outubro de 1947, aeronave tripulada nenhuma resistia o stress estrutural dessa turbulência.
  • Os motores principais da Endeavour estão em funcionamento o video inteiro, como diz o titulo do video (MECO = Main Engine Cut Off). O silencio do vácuo espacial engana. A ultima manobra é realizada com controle direcional de motor, já que as superfícies de controle não servem pra nada (não existe atmosfera para manobrar).

Mais informações sobre a Endeavour, sobre o projeto espacial da NASA de ônibus espaciais e sobre a missão de hoje.

Este texto foi escrito no dia do lançamento (15/07/2009), prefiri manter os tempos verbais do momento. As informações técnicas e as fotos foram retiradas da Wikipedia.